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Natura Algarve

Dalgumas regras gerais da guerra

28.03.2010 // Ricardo Barradas

In   Oliveira, Pe. Fernando - Arte da Guerra do Mar. Edições 70, Lisboa, 2008, pp 133-4

Para que vossa mercê e quem deste meu trabalho quiser aproveitar, tenham recolhidas algumas regras, de que se em pronto possam lembrar, saiba que na guerra do mar se requer saber e fiel indústria nos oficiais, uso e destreza na gente, cópia no provimento, cautela e diligência no fazer, e mais saibam que:

- O erro cometido no assentar da gente põe em perigo as batalhas.

- É grande perigo fazer guerra com gente nova e sem exercício.

- Mais valentes faz o exercício que a natureza.

- O trabalho faz boa gente de armas e a ociosidade os faz ronceiros.

- Vigiar de noite, trabalhar de dia, sofrer fome e sede, calma e frio, são exercícios da gente de armas.

- Nas pousadas castigo e pena, na guerra liberdade e benignidade fazem boa gente de armas.

- Quando a nossa gente desconfiar, não acometamos batalha e se poucos desconfiarem, esses não vão connosco porque os tais ou amotinarão ou desordenarão os outros.

- Poucas vezes demos batalhas públicas, nas quais tem mais parte a ocasião que a valentia ou saber.

- Os sobressaltos súbitos aterram os inimigos e os encontros providos não abalam.

- Constranger os inimigos pela fome ou necessidade é de menos perigo e perda que pelejar com armas.

- Quem se não provê de mantimentos e cousas necessárias será vencido sem ferro.

- Mais vale a ordenança que a multidão.

- O lugar muitas vezes vale mais que a força.

- O capitão prudente sempre está apercebido, o destro não deixa perder a boa ocasião quando se lhe oferece.

- O conselho sem segredo de ventura vem a efeito.

- Quando encobrimos nossas cousas, tanto façamos por saber as dos contrários.

- Quem entende o seu e o dos contrários está perto da vitória.

- O que aproveita a nós, dana os contrários, o que aproveita para eles, prejudica a nós.

- Não façamos o que fazem os nossos contrários nem vamos por onde eles vão porque não sabemos o que cuidam e todos os seus caminhos nos são suspeitos.

- Se entendemos seus conselhos, desfaçamos-lhos, ao menos evitando-os.

- Nem em tempo nem em lugar nem noutra alguma coisa consintamos com eles.

- Quando quiserem, não queiramos e quando não quiserem, então façamos.

- Se entenderem nossas tenções, não façamos o que determinámos.

- Tanto dissimulemos que nos tenham por mentirosos.

- Quando confiarem da nossa mentira, então façamos dela a verdade.

- Quem diz verdade a seu inimigo, dá-lhe aviso contra si mesmo.

- Quem poupa seu inimigo acrescenta seu trabalho.

- Seguir o alcance desordenadamente é caminho de perder a vitória.

- Mais quebrantam fugitivos que mortos.

- Façamos honra a quem nos vem buscar.

- Esperemos pelo mar e não ele por nós.

- Ache-nos o tempo prestes porque se não vá sem nos aproveitar.

- Ache-nos o tempo apercebidos porque não dane quando vier.

- No mar, não continuemos um só caminho nem passe ninguém sem nos falar.

- Do mar e do tempo nos devemos vigiar, como dos inimigos.

- No vagar tomemos o vento porque na pressa não fiquemos descaídos.

- Melhor é discorrer que virar as antenas sotavento dos inimigos. Nem junto deles.

- Receosos devem ser os homens e não medrosos, devem estimar as cousas do mar e não espantar delas.

- Parecem admitir cousas contrárias e perplexas, assim o mar como a guerra, portanto requerem cuidado discreto. O mar quer espera, diligência, sofrimento e ardileza, quer que lhe não hajam medo e que fujam dele. A guerra pretende justiça e engano, verdade e mentira, crueza e piedade, conservar e destruir.

Nota biográfica do Pe. Fernando Oliveira (pp IX-XIII):

1507 - Nasce em Santa Comba Dão.

1517 - Estudos em convento dominicano.

1520 - Estuda com mestre André de Resende no convento da ordem de S. Domingos em Évora.

1522 - Entra para a ordem dos dominicanos.

1531-2 - Abandona o convento e foge para Castela. Viaja em naus e aprende marinharia.

1536 - É-lhe concedida a secularização pelo papa Paulo III. Torna-se mestre de filhos de nobres em Lisboa. Publica a Gramática da Linguagem Portuguesa.

1541 - Embarca em Barcelona com destino a Génova. O navio é aprisionado por galés francesas numa das quais passa a servir como piloto.

1543 - Regressa a Lisboa.

1545 - Entra no Tejo uma armada francesa de 25 galés. Vai juntar-se no Havre à restante armada francesa que se propõe fazer um desembarque na costa sul de Inglaterra. É contratado secretamente como piloto de uma das galés, com o nome de Martinho.

1546 - A galé é aprisionada no canal da Mancha. Oliveira é levado para Inglaterra.

1547 - É portador de uma carta do rei Eduardo VI para D. João III de Portugal. Hospeda-se no bairro de marinheiros em Cata-que-Farás (Cais do Sodré). Numa livraria da rua Nova em Lisboa, onde era assíduo, faz considerações sobre questões religiosas. É interrogado pela Inquisição.

1548 - Condenado por tempo indeterminado por defender “doutrinas heréticas, temerárias e escandalosas”. Deve fazer abjuração formal e penitência. Doente, no hospital, faz abjuração, mas ainda fica preso mais dois anos.

1550 - O castigo é perdoado se retomar o hábito e a tonsura sacerdotal no mosteiro de Belém (Jerónimos).

1551 - O infante D. Henrique concede-lhe a liberdade com proibição de se ausentar de Portugal sem licença e ordena-lhe que se entregue a exercícios virtuosos.

1552 - Embarca numa caravela que integra uma frota de cinco navios para combater em Marrocos. São aprisionados por uma esquadra argelina de 25 galés.

1552-4 - Escreve em Lisboa a Arte da Guerra no Mar.

1554 - Nomeado revisor da Imprensa de Universidade de Coimbra.

1560 - Publica o Livro das Fábricas das Naus.

1564 - O rei D. Sebastião concede-lhe uma tença de vinte mil reis na qualidade de clérigo de missa. Pouco se sabe do seu destino a partir desta data. Há fragmentos de uma História de Portugal da sua autoria existente na Biblioteca Nacional de França. O célebre bibliófilo português Inocêncio dá-o como vivo ainda em 1581, mas desconhece-se o fundamento dessa suposição.

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