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Natura Algarve

Cacela

11.02.2009 // Joaquim Barradas

Cacela é a designação abreviada para o território correspondente à freguesia de Vila Nova de Cacela. Esta encontra-se localizada no levante algarvio e pertence ao concelho de Vila Real de Santo António (que abrange uma área de 52 km2).

O território Algarvio é formado por três unidades geomorfológicas distintas: o Litoral, o Barrocal e a Serra, assumindo cada uma destas unidades, características próprias. A freguesia de Vila Nova de Cacela abrange estas três unidades. Na zona litoral estão situadas a aldeia de Cacela Velha, a Manta Rota e o Sítio da Fábrica. Cacela Velha é uma das últimas pequenas povoações que confinam com a parte terminal do braço leste da Ria Formosa, o que lhe proporciona boas condições como porto de abrigo para a navegação.

Situada numa pequena encosta com pouco mais de uma dezena de metros de altura, o povoado sobranceiro à ria sempre teve condições excelentes de observação e vigia do da costa.

A ocupação de Cacela remonta, pelo menos, ao período Neolítico. Os túmulos megalíticos de Nora e Marcela (já destruídos) identificados por Estácio da Veiga ainda no séc. XIX atestam isso mesmo. Recentemente foi identificado e escavado um novo túmulo na povoação de Santa Rita, uma pequena aldeia situada quatro quilómetros a norte da Cacela. Num local ali perto, em Alcaria do Pocinho, foi também identificada uma grande necrópole do período neolítico, o que documenta uma ocupação bastante antiga do território.

Nesta zona existem registos que documentam a presença de fenícios e cartagineses que teriam comerciado com os povos locais, os Cuneos - antiga designação das populações que habitavam esta região durante aquele período.

Vestígios mais significativos deixaram os romanos. Encontraram-se quer na zona de Cacela Velha, quer na Manta Rota, alguns elementos que sugerem a existência de várias villae na zona. Tanques para salga de peixe, fornos de cerâmica, fustes de colunas de mármore e vários outros vestígios atestam uma ocupação desse tipo.

Durante o período árabe, Cacela Velha foi uma pequena aldeia com actividades ligadas à pesca/mariscagem e à agricultura. Integrada no no território do Gharb al-Andalus, há vários indicadores que atestam a importância da povoação naquela época. Desde a actual fortaleza, edificada possivelmente ainda no séc. X (embora a forma actual resulte de modificações efectuadas num período mais recente) até ao bairro do período almóada, identificado a nascente da actual povoação, no Sítio do Poço Antigo, tudo indica que a sua importância económica e estratégica nestes tempos fosse significativa.
Ficou célebre o poeta Ibn Darraj al-Quastalli, que aqui nasceu no ano 958. Escreveu ele num dos seus poemas:

Minha vida é dada às armas
E a couraça eu só tiro
Com o peito a palpitar
Se a beleza oculta em véus
Eu pressinto em seu arfar

Al-Idrisi, o célebre geógrafo nascido em Ceuta no ano de 1099, foi um viajante incansável. Visitou a Ásia e outras regiões longínquas, mas Cacela também mereceu a sua atenção, tendo esta ficado registada nas suas descrições de viagem. Percebe-se através dos seus registos que Cacela tinha uma fortificação à beira-mar, e que a o território envolvente da povoação estaria repleto de pomares de figueiras e laranjeiras, explorados pelas populações que aqui viviam.
Enfraquecidos depois da queda de Chelb (Silves) em 1189, os árabes não conseguiram deter o ímpeto da reconquista cristã. Também a povoação de Cacela veio a cair em poder dos cristãos e a conquista de Cacela pelas tropas cristãs aconteceu sob o comando de D. Paio Peres Correia, em 1239.
Não passaram quarenta anos até que a povoação recebesse carta de privilégio do rei D. Dinis, o que atesta a sua importância crescente. Por receitas obtidas com o pescado, na sua maior parte, Cacela estava capaz de gerar excedentes para satisfazer o regime contratual a que se obrigavam os forais para com os monarcas. Importa referir que Cacela foi sede de concelho até à criação (pela mão do Marquês de Pombal) da nova Vila Real de Santo António, no séc. XVIII.

Ainda no século XIII/XIV é construída a primitiva Igreja de N Sra da Assunção, localizada possivelmente sob o Antigo Bairro islâmico. Mais tarde, ter-se-á então edificado a nova (e actual) Igreja, construída na parte mais elevada da povoação durante os sécs. XV - XVI. Sabe-se hoje que essa Igreja foi fortemente danificada pelo terramoto de 1755, tendo sido reconstruída no séc. XVIII (1795), por iniciativa do Bispo do Algarve D. Francisco Gomes do Avelar.
Nas primeiras décadas do século XVII, quando Portugal estava ainda sob dominação castelhana, foi contratado o engenheiro militar Alexandre Massaii, oriundo da península itálica. Ele foi enviado ao Algarve e a outras zonas da costa sul do país para avaliar e propor soluções de importância militar para a defesa do território3.
Massaii escreve que Cacela não tem mais que um forte, a igreja e um poço comunitário. Este poço fornecia aguadas a navegantes, tanto amigos como inimigos, por não haver meios de os enfrentar e repelir. O castelo também estava tão danificado que em situações de perigo, quando tocava a rebate, a população já não se refugiava nele, e preferia caminhar para norte, a caminho da serra. O principal perigo provinha dos assaltos de piratas e corsários, já que a povoação sempre esteve extremamente exposta (pela sua localização) aos perigos vindos do mar. As investidas sofridas devem ter sido grandes e por isso, muitas vezes, não se cultivavam as terras junto ao mar. Durante a noite mantinham três vigias armados, por turnos, à noite. Na praia, faziam a segurança com seis homens a cavalo4.
O italiano considerou que eram necessárias obras no forte para reparar um dos muros que tinha ruído pelo muito peso (casas) que tinha em cima. Também as torres e outras pequenas partes dos muros necessitavam reparação. Propunha o aprofundamento do fosso que protegia o castelo e era atravessado por uma ponte levadiça. Massaii avaliou em 900 mil reis as despesas totais com estes arranjos e armamento do forte com canhões e mosquetes. Considerava um investimento demasiado avultado para a importância estratégica da povoação. Talvez de forma radical, ou por alguma insensatez, propôs o abandono da povoação5.
Na época, Cacela e o seu termo tinham 183 habitantes6. Dispunham de um celeiro no interior do forte e de um poço para uso comum. A justiça era aplicada no pelourinho já construído. Com relativa estabilidade social no país e sem guerra com outros países, neste ano de 1621, a população temia principalmente os piratas e corsários.
A igreja de N Sra da Assunção, que tinha sofrido obras e era uma construção magnífica com três naves, ficou quase totalmente destruída com o terramoto de 1755. Quinze anos depois, o governador do Algarve, D. Rodrigo de Noronha, manda reconstruir a fortaleza, que ficou concluída em 1794, conforme atesta a lápide colocada na porta de entrada da fortaleza.
Vista de Cacela VelhaCacela volta a ter importância quase fortuita no século seguinte. Foi palco do desembarque de um contingente militar de 2500 homens, número avultado para tão pequena povoação. Eram as tropas do duque da Terceira, vindas dos Açores, que aí desembarcavam no dia 24 de Junho de 1833. Elas vinham socorrer e apoiar as forças liberais de D. Pedro, cercados há quase um ano pela facção absolutista, na cidade do Porto. Estas tropas que se introduziram no território beneficiaram da circunspecção de tão remota povoação para não serem detectadas. Na verdade, depois da vitória naval dos liberais no cabo de S. Vicente, esta força que desembarcou em Cacela progrediu sempre até Lisboa e tomou-a sem que os detentores da cidade opusessem resistência. Era o princípio da derrocada das forças absolutistas e da vitória dos liberais.
Povoação milenar, Cacela nunca teve um desenvolvimento que conduzisse a um aumento considerável da sua população ou do património construído. Se era um excelente ponto de vigia no passado, proporciona hoje uma vista magnífica para o oceano e para a ria Formosa, em quase toda a sua extensão. Pequena e acomodada, Cacela tem personalidade própria e o encanto das coisas pequenas mas destemidas para resistirem a toda a provação.

Em 1927 foi alterada a sede da freguesia do sítio da igreja (actual Cacela Velha) para o sítio da Venda Nova. A povoação da Venda Nova foi construída casa a casa, tendo como matriz a rede existente de caminhos. A nova freguesia passou a denominar-se Vila Nova de Cacela, ocupando 46,600 Km2 do concelho de Vila Real de Santo António. Actualmente a freguesia dispõe de um Jardim escola e de um pavilhão gimno-desportivo, sinal de evidente de investimento na juventude. A população activa inclui, como sempre, pescadores e agricultores, mas existe um novo dinamismo ligado ao turismo, que assume uma importância cada vez mais acrescida. Desde a oferta de alojamento para aluguer e para venda, até à restauração, assinala-se progresso acentuado nos últimos anos.

Como se vê, os valores com importância cultural e histórica encontram-se distribuídos ao longo de toda a freguesia, desde o valioso património rural construído, aos valores naturais, passando por um rico património oral.

É possível descobrir-se no recém-criado Centro de Investigação e Informação do Património de Cacela, sedeado em Santa Rita, um núcleo científico activo, interpretativo do território de Cacela, que visa potenciar o usufruto dos patrimónios por públicos de origens diversas numa perspectiva informativa, museológica, de lazer e turismo. 
Este dinamismo torna possível que Cacela venha a conhecer um crescimento sustentável adequado pela aposta na valorização do seu importante património cultural e diversificação das actividades económicas. Seja como for, a sua situação privilegiada, a tranquilidade do lugar e as suas magníficas vistas nunca deixarão de ser apanágio da sua riqueza.

Agradecimentos: CIIPC

Bibliografia

1. Alves A - O meu coração é Árabe. Poesia luso-árabe. Ed. Assírio e Alvim, 2ª ed. 1991, p 80.
2. http://pt.wikipedia.org - Castelo de Cacela.
3. Guedes LC - Aspectos do reino do Algarve nos séculos XVI e XVII. A “Descripção” de Alexandre Massaii (1621). Arquivo Histórico Militar, Vol. 1, Lisboa, 1988, p 15.
4. Id, p 98
5. Id, p 152
6. Id, p 195

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